Esta linha representa o caminho. O inelutável caminho que todas as equipas têm de percorrer. Algumas quedar-se-ão escassos milímetros após o primeiro passo, por não terem quem as guie mais além. Outras iludir-se-ão, julgando, talvez, que já pouco falta para chegar ao fim. Mas ele não existe. Existe apenas o alfa, ao passo que o putativo ómega escapará sempre, numa fuga perpétua em direcção ao infinito. Esta linha é o caminho do caos.
Repetimos, para que as pessoas não se esqueçam – e para que entendam que a possibilidade de tudo controlar é limitada pelo real, em contraponto ao imaginário fantástico que parece povoar as correntes de opinião nas bancadas – que o jogo é caótico. Nenhum treinador, por mais inteligente e competente a transmitir o seu pensamento que seja, por melhores jogadores de que disponha, conseguirá fazer com que uma equipa contradiga plenamente esse caos, se sobreponha a esse caos. Isto porque, mesmo dentro de um modelo de jogo colectivo altamente complexo e organizado, as decisões de 22 indivíduos, ainda que condicionadas por esse modelo treinado diariamente, influenciarão a progressão, momento a momento, de uma partida e, por fim, o seu desfecho; e, sobretudo, porque todos eles errarão algures. Não obstante, um treinador que tome para si o bordão e guie os seus jogadores pelos caminhos da transumância futebolística poderá chegar aos mais férteis pastos, aonde os que se limitam a assobiar, sentados numa rocha fria, nunca porão pé. Não falamos, estritamente, de ganhar um jogo ou um troféu; falamos, isso sim, de aumentar exponencialmente a plausibilidade da vitória em cada jogo, em cada troféu disputado. Falamos de incutir um ideal que faça frente à aleatoriedade de um jogo sem ordem. Falamos de treinar uma equipa para querer ser a dona da bola.
Querer ser o dono da bola é recusar permanecer no início do caminho do caos, onde existe apenas o princípio reactivo, em que as decisões que uma equipa toma são sempre derivadas do que lhe é externo – as decisões da outra equipa – e onde os factores exógenos a ambas as equipas mais influem (estado do terreno, condições climatéricas, arbitragens…). Querer ser o dono da bola é almejar a atingir uma outra espécie de caos, que qualificaria de princípio proactivo, em que a equipa propicia a que as coisas sucedam de determinada forma, consentânea com o seu modo de entender o jogo. Ora, a melhor, porque mais completa, forma de agir premeditadamente sobre o decurso de uma partida é controlar, é ter na sua posse durante a maior parte do tempo, aquilo que mais influencia a disposição dos jogadores no terreno: obviamente, a bola.
Antes de mais, e porque, como diz o adágio, a outra equipa também joga, é preciso saber roubá-la o quanto antes, mas com a inteligência suficiente para não ser traído pela própria demanda. Ou seja, quem quer realmente controlar um jogo tem de ser tão antecipatório a defender quanto o será a atacar, pois a opção pela expectativa permanente apenas aumentará as possibilidades de o adversário conseguir marcar, ele próprio, um golo – visto que o tempo provoca, pelo seu desgaste na psique e no físico, uma natural quebra de concentração e, consequentemente, eficiência. Uma tal equipa defende com o objectivo de constranger o adversário a errar – seja um erro de decisão, seja um erro técnico – ou de lhe negar qualquer solução que lhe permita manter com segurança a posse bola – obrigando, por exemplo, a que o adversário tenha de bater uma bola sem destinatário, que leve a uma disputa para a sua (re)conquista. Esses comportamentos servem, por princípio assumido, para tentar levar à recuperação da posse de bola o mais rápido possível. E, nesta condição sublinhada com todo o propósito, reside um outro pilar estruturante de uma defesa ideal: a paciência é a maior virtude, quando não se deseja ser vítima da precipitação dos próprios actos, do sofrimento causado pelo desejo em demasia – que a equipa queira recuperar a bola é um objectivo do bom treinador; que ela consiga ser capaz de perceber os momentos em que tal desiderato não é concretizável, e, por isso, se abstenha de o tentar provocar, cedendo, aí sim, a uma posição momentaneamente mais expectante, em vez de pretender vergar o inexequível, é a outra metade, por ventura a mais complicada, do seu trabalho.
Necessariamente, tudo isto se aplica no sentido inverso, ou seja, quando a equipa tem, finalmente, a bola em seu poder. Também aqui, o que torna o jogo potencialmente melhor é a intencionalidade de cada acção. E digo intencionalidade, em vez de objectividade, porque este termo, por ser um pouco dúbio, anda demasiado confundido nas mentes dos adeptos (lá iremos, a seu tempo). Agir com intenção é, como é óbvio, não fazer nada apenas porque sim, sem uma certeza de ser uma solução válida; é pensar e executar com inteligência aquilo que permitirá à equipa chegar ao objectivo do jogo – marcar golos. Mas é, além disso, não apressar as tentativas de chegada à baliza contrária, é esperar pelo momento mais adequado para desferir tal ataque directo, concretizando, nos entretantos, movimentos e decisões subordinados a esse intuito implícito. Manter a posse de bola com inteligência – incluindo trabalho com e sem bola, como seja multiplicar opções de passe ao portador, em dinâmica constante, para que este seja capaz de aproveitar espaços clareados – permite compelir a defesa a errar, levando-a para onde se quer que ela vá, desorganizando-a, para depois a atacar pela zona mais enfraquecida. Tal como sucede com os momentos defensivos, é aqui que o treinador mais dificilmente levará a bom porto os seus desideratos – conseguir convencer os seus jogadores a não procurarem sempre o golo da forma mais abreviada possível, mas sim quando a própria equipa se encontra preparada para o procurar com qualidade e alto grau de probabilidade de êxito.
Subjazem, nestas afirmações, dois ideais que sintetizam a força motriz que impele a marcha ao longo do caminho: ter a posse de bola e realizar aquilo que é mais indicado a cada momento. O que urge que se compreenda, de uma vez por todas, é que o ideal da posse de bola não se sobrepõe, não combate, não nega o ideal da tomada de decisão. Quer-se com isto dizer que, se a melhor decisão a tomar for a de contra-atacar rapidamente, aproveitando um momento de absoluta desorganização adversária que permita clara vantagem para a equipa, não se irá esbanjar tal oportunidade por se ser apologista da posse de bola. O verdadeiro busílis da questão, que tão pouco é percebido pela maioria, é que, na maior parte das vezes, a vantagem está em gerir e utilizar inteligentemente a posse de bola, mantendo-a activa sem a precipitar no sentido da baliza contrária, mas somente no momento adequado. Ou seja, se uma equipa deve fazer aquilo que o contexto momentâneo lhe exige, melhor ainda será ter uma ideia de jogo que lhe permita condicionar esses contextos, tornando-os benfazejos à sua complexa organização colectiva, sempre que eles não se apresentarem evidentemente favoráveis.
Posto isto, insinuaremos que, no grande panorama dos estádios evolutivos das equipas de futebol, as que se encontram mais adiantadas no caminho infindo em busca da mirífica perfeição, as mais organizadas, são aquelas que denotam processos colectivos suficientemente fortes para conseguirem anular na mor parte do tempo a significância do pormenor – em que as individualidades conseguem ser mais determinantes – e do aleatório – a sorte ou azar de um tufo de relva levantado, e todas as outras condicionantes de uma partida, exógenas a ambas as equipas e que a ambas pode influenciar. Dentro destas, sem dúvida que indicaremos como dianteiras as que pugnam em campo com um modelo de jogo sustentado na posse de bola inteligente. Porquê? Porque são essas que deixam menos espaço para o adversário agir sobre o desenrolar da partida, impondo elas a sua filosofia, manietando a prossecução do tempo. Sobretudo, porque são essas que conseguem impor o seu modus operandi a qualquer outro adversário, ou seja, uma tal equipa joga no seu estilo contra qualquer outro, não se adapta, porque não precisa de se adaptar para ganhar vantagem.
Mas acrescentaremos, igualmente, aquilo que o ideal da posse de bola não é – não é uma panaceia infalível contra todos os males que fará da vitória uma certeza à partida. Ser a melhor forma de garantir que uma equipa se encontra preparada para lutar competentemente por um resultado ou prova, controlando, dominando partida após partida, não garante que se saia por cima de todas as pelejas. Porque até estas equipas têm limites: desde logo, o limite imposto pela capacidade que os seus elementos possam ter, ou não, para executar o modelo, erguendo-o aos graus mais elevados de complexidade – se mesmo os melhores jogadores do mundo falham, por vezes, decisões ou gestos técnicos, pondo em causa o desenrolar de uma partida, uma equipa muito bem trabalhada pelo treinador, mas com jogadores medíocres, estará limitada no seu desenvolvimento pela maior frequência de erros individuais; ligando-se a esta questão, assoma a possibilidade de uma tal equipa encontrar uma outra, menos organizada, apologista até de um estilo de jogo mais directo, menos complexo, mas que disponha de jogadores muito mais capazes – sendo assim, é sempre possível que a qualidade individual se sobreponha, numa partida específica, ao valor colectivo, embora, na longa duração, a balança tenda, decerto, para este último; depois, há o risco de uma tal filosofia redundar num efeito paradoxal – a crença absoluta na posse de bola enquanto efeito gerador de supremacia pode originar, por seu turno, uma diminuição da prevalência da decisão mais correcta, a qual, como dissemos, não se submete àquela forma de jogar em todos os contextos momentâneos, ou seja, invertendo a hierarquia, pode-se reduzir, paulatinamente, as probabilidades de sucesso, ainda que recorrendo a um modelo intrinsecamente capaz de as potenciar.
Por fim, e como triste epílogo, resta o maior limite que esta forma de jogar enfrenta: a impaciência alheia. Embora seja, até ao momento actual, a realização mais elevada do futebol, é também a mais trabalhosa, é também aquela que mais tempo dura a consolidar. Por isso, e por ninguém querer esperar para ver resultados, não se aposta, em larga escala, na implementação de tal modelo, mesmo que com tonalidades ligeiramente diferentes, para agradar a uns quantos gregos ou troianos. E, por consequência, não podemos, para já, antever com claridade o que virá a seguir. O que virá a seguir apenas surgirá quando, ou melhor, se se generalizar esta forma de ver o jogo. Apenas do confronto directo constante entre equipas de tal calibre poderá advir a próxima evolução do jogo mais belo. Até lá, até surgir essa revolução de paradigma, estaremos condenados a meros lampejos, e a ver sempre o horizonte do caminho como um trémulo ocaso.
Grande texto. Fodasse, isto é a sério: onde é que aprendeste tantas coisas?
ResponderEliminarEh, eh. Obrigado... isto são tudo coisas que se vai lendo, vendo e, sobretudo, pensando e escrevendo para ficar registado sem necessidade de ter de voltar a pensar nelas. :)
ResponderEliminarCaro Arur, que grande pérola... vou roubar... Obrigado!
ResponderEliminarCaro Artur, como é óbvio... :D
EliminarEste blog é um achado! Parabéns, Artur.
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