The Indian tribes around the sleepy Arizona city of Flagstaff have an interesting take on the human struggle for peace and harmony. According to their traditions, the difficulties and confusions of life have their roots in the arrangement of the stars in the heavens—or rather the lack of it. Those jewels in the sky were meant to help us find a tranquil, contented existence, but when First Woman was using the stars to write the moral laws into the blackness, Coyote ran out of patience and flung them out of her bowl, spattering them across the skies. From Coyote’s primal impatience came the mess of constellations in the heavens and the chaos of human existence."
Michael Brooks, “13 Things That Don't Make Sense: the most intriguing scientific mysteries of our time.”
Ninguém é perfeito. A pressa é inimiga da perfeição. Todos nós somos, a um nível mais ou menos acentuado, apressados, impacientes como o Coiote, e é isso, em parte, o que nos impede de ascender a essa perfeição tão almejada pelo ser humano. Os treinadores, enquanto seres humanos, não fogem à regra, não têm como eludir a massa de que são primordialmente feitos, e, portanto, falham. No entanto, e como não se dá o caso de haver duas pessoas iguais, há uma paleta quase infinita onde coexistem os que reflectem fielmente a imagem do animal efabulado com os que se tentam assemelhar à Primeira Mulher, ou seja, há os que deixam dissipar o futebol na sua aleatoriedade caótica, e há os que lhe tentam dar ordem, regra, organização, há confusão e há criação e tudo o mais de permeio. As bancadas, porém, estão repletas de carnívoros cruéis, pelo que a vida é complicada para quem não cede à pressa… de vencer.
Considerámos anteriormente que a complexidade de um jogo de futebol não será, jamais, domada na sua totalidade. E, ao contrário do que se costuma dizer acerca de tanta coisa, custa mesmo tentar! É preciso tempo, muito tempo, mais tempo que aquele que, normalmente, os adeptos estão dispostos a conceder. E, não obstante, só assim vale a pena falhar.
Voltemos à cavadela anterior, à bola que parou momentaneamente a reflectir. De onde veio? Para onde vai? E, sobretudo, porquê? Que ela veio propulsionada pelos pés, cabeça, ou qualquer outra parte admitida para lhe tocar, de um dos jogadores em campo, é coisa certa, pois sendo esta um objecto inanimado não se move sozinha e é assim que se joga futebol. Posto o óbvio ululante, ela pode estar a caminho de uma baliza, ou de um outro jogador, que é como quem diz, pode estar numa trajectória que a conduza ao objectivo principal – marcar golo – ou apenas em mais uma trajectória intercalar, de entre as milhentas que existem numa partida. Se quisermos ser mais prosaicos, temos, assim, que a bola foi rematada ou passada. Resta saber como explicar que esteja numa ou outra situação.
Da moeda lançada ao ar pode calhar sair cara ou coroa. O resultado desta acção é passível de ser, teoricamente, calculado antes que seja tornado efectivo ou, pelo menos, verificável empiricamente. Nada disso serve para deslindar estoutro caso, porque a condição em que se encontra a bola não deriva de nenhuma lei científica, mas antes e apenas da decisão tomada por quem lhe tocou. A serem comparáveis os casos, teríamos de perceber por que razão se lançou a moeda com determinado dedo, com determinada força, em determinada direcção mais ou menos vertical. E, todavia, ou se lançou e há um resultado, ou não se lançou, e nada há que mostrar. Por isso que é impossível prever com exactidão o que vai suceder num jogo de futebol a partir do momento em que soa o primeiro apito do árbitro: a partir desse instante mandam as decisões tomadas primariamente a um nível individual, as quais são muito mais complexas que as relacionadas com o exemplo da moeda: o equivalente a não lançar, isto é, não agir de modo nenhum não é opção; quanto muito, o jogador pode temporizar um pouco, antes de agir, ou pode decidir nunca ser jogador de futebol. Há, pois, que operar uma das acções possíveis com bola, rematar ou passar, ou ainda driblar, ou ainda conduzir. Há, mais que isso, que rematar agora, um milésimo de segundo depois, para cima, para baixo, para o meio, em força, com jeito e efeito, em balão, rasteirinho… ou passar para o fulano, ou para o sicrano, para diante, para trás, para o lado, um passe curto ou para a profundidade… ou conduzir veloz para a esquerda, direita, em frente, recuar… ou driblar o único defesa que lhe tapa o caminho directo para a baliza… ou [continuar a inserir aqui todas as decisões possíveis].
Há, pois, que operar uma das acções sem bola, ao ver o colega com o domínio da mesma.
Há, pois, que operar uma das acções sem bola, ao ver o adversário com a mesma.
Há, pois, que decidir como receber a bola, se esta lhe for passada.
Há, pois, que decidir, decidir, decidir…
Há, pois, que perceber que cada uma das disposições momentâneas dos jogadores em campo, embora esteja necessariamente incluída no rol das milhentas combinações possíveis, deriva fundamentalmente, não de relações causa-efeito explicáveis pelas ciências matemáticas do universo, mas sim das decisões que cada jogador toma, após analisar, em instantes extremamente fugazes, o contexto: onde está a bola, quem a tem, onde estão os meus colegas, onde está a baliza que pretendo atacar ou defender… e que nenhum jogador toma tal decisão sabendo, de antemão e com precisão absoluta, qual a decisão que os outros vão tomar. Estamos, portanto, a falar de um fluxo contínuo de informação sensorial a provocar reacções em cadeia nas insondáveis sinapses de 22 elementos independentes. Não há com certeza tecnologia humana que possa sequer simular este acúmulo de processos, quanto mais um ser capaz de o controlar totalmente.
O que faz, então, o coiote inquieto? Como não dispõe da perseverança necessária para tentar sequer apreender a fundo o que diante de si se desenrola, deixa os jogadores à solta, entregues ao seu arbítrio indomado, esperando que, por resultado de alguma maquinação instantânea e não premeditada, algo de positivo suceda para o seu lado. Atira as gemas para o relvado e espera que, por algum passe de mágica, elas se alinhem numa constelação bem-sucedida.
E que faz aquele que é mais paciente? Trabalha diariamente para tentar oferecer aos jogadores da sua equipa alicerces colectivos sobre os quais eles possam sustentar essas decisões individuais. Não os constrange a fazer exactamente o mesmo a todo o momento, ensina-os a olhar e entender o que se passa em redor, e dá-lhes depois a liberdade de decidir como considerarem melhor, dentro dos limites filosóficos de um ideal de jogo. Estimula-lhes o pensamento complexo, ensina-os a voar…
É essa a distinção entre ter o cargo de treinador e assumir a missão de treinador. Ter o cargo é ostentar uma braçadeira e aparecer na ficha dos jogos, sem interferir em nada com a realidade de cada partida, de cada época, com a memória um clube ou selecção, menos ainda com a história do mais belo jogo. Assumir a missão é ser o oposto e ser o alvo da sede ferina dos coiotes que pululam nas bancadas, ignaros da beleza moldada em tons de complexidade que se lhes poderia ser oferecida, se não desejassem, ao invés, uma qualquer outra coisa.
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