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segunda-feira, 24 de agosto de 2015

O sentido da vida é só cruzar

Um cruzamento é, numa perspectiva simplista, a intersecção de duas linhas. No futebol, as linhas que constituirão um cruzamento serão a percorrida pela bola, mais ou menos paralela à linha de golo, e o corredor central do campo, que, mais que mera linha, será o plano que unirá longitudinalmente as duas balizas. Algures no tempo, e por alguma razão, para nós um tanto ou quanto obscura, passou-se a considerar que a melhor forma de chegar ao golo seria materializar essa disposição cruciforme vezes sem conta, até que um jogador conseguisse, enfim, interceptar a trajectória do esférico, arremetendo-o na direcção das redes adversárias. Por alguma razão, ainda mais obscura, esse paradigma continua a alimentar as crenças de milhares de feéricos treinadores de bancada, que reclamam, vociferantes, de cada vez que uma bola se projecta para lá dos limites laterais da área, que a mesma seja de imediato cruzada. Por alguma razão, tão obscura que se julga que nem a própria luz dela consegue escapar, alguns ditos treinadores, com cursos certificados por altas instâncias e tudo, fazem coro com aqueles.
Permitir-nos-emos, com a insolência dos ingénuos, tecer algumas considerações…

Truísmo: a forma mais rápida de conseguir marcar um golo seria, partido do centro do campo, seguir em linha recta até à baliza, sem desvios. Infelizmente… existem adversários. Assim sendo, torna-se necessária uma sequência de movimentos que, desviando a bola dessa linha óptima, fazendo-a navegar por outras partes do campo, a possam trazer novamente até às proximidades desse eixo maior, até que, finalmente, ela chegue ao seu destino primordial. Ora, parece-nos claro e evidente que, quanto menos a bola se tiver de desviar desse corredor central, melhor será para quem ataca, pois mais circunjacente se encontrará do que, por sua vez, se soeu chamar de zona de finalização, isto é, daquela zona do campo em que, estando o jogador sem grande oposição, um remate não necessita de ser uma obra de génio, ou de beneficiar de um monumental falhanço do guarda-redes adversário, para que entre na baliza. Por isso advogamos que quanto mais uma equipa apostar no jogo interior, com qualidade, maiores as probabilidades terá de conseguir atingir o sucesso em cada jogada de ataque. Infelizmente… existem adversários. Assim sendo, poderá ser necessário alargar mais e mais o jogo atacante, quanto maior a qualidade e/ou grande densidade de canelas com que o adversário fechar os caminhos por esse corredor central. Não esquecendo, porém, o objectivo de, assim que surja a mais pequena hipótese, regressar ao centro, de preferência, com a bola pelo chão, controlada e orientada no sentido da baliza. Infelizmente… tudo isto dá trabalho, sobretudo a treinar. Achamos, por isso, que a primazia que o cruzamento conseguiu obter para si se deve, acima de tudo, ao carácter intrinsecamente preguiçoso do ser humano, que procura, sempre que possível, a solução que lhe faça despender a menor quantidade de recursos. Ir para a linha é, normalmente, rápido e relativamente fácil. Arranjar espaço para cruzar uma bola, também. Confiando nas probabilidades, veio a fé de que, algures entre dezenas de cruzamentos, alguma bola há-de ter um final feliz e beijar as redes.

O grande defeito deste estilo de jogo prender-se-á, na nossa perspectiva, com a anulação em larga escala do factor decisório. O futebol, reiteramos, é um jogo de inteligência, a vários níveis, sendo que, mais que a inteligência motora ou emocional, o que importa, o que verdadeiramente distingue os melhores dos bons, estes, dos medianos, e ainda estes, dos fracos, é a capacidade de analisar e decidir com maior ou menor qualidade perante contextos sempre diferentes a cada momento, diríamos que quase manipulando, a seu bel-prazer, a volubilidade do jogo. Ora, se uma equipa reduz a sua procura do golo a sucessivos cruzamentos, não há margem para grandes decisões, há sobretudo execução; logo, não há desafio ao adversário que defende, o qual apenas se tem de preparar convenientemente para responder a um conjunto de solicitações similares. Do mesmo modo, o que se passará dentro da área, salvas as raras excepções de jogadores geniais neste tipo específico de situação de ataque, será menos decisão por parte de quem procura dar uma sequência positiva ao lance, e mais mera disputa — quando se está a tentar, primeiramente, chegar a uma bola lançada pelo ar, isto é, que é pertença de ninguém, que espaço fica para decidir para onde se tentará rematar, caso, de facto, se chegue à bola?
O que não quer dizer que todos os cruzamentos, entendidos enquanto mera intersecção de linhas, como acima descrito, sejam inerentemente maus. Podem ser, de facto, a melhor decisão, quando haja, por exemplo, superioridade numérica ofensiva, ou quando o posicionamento defensivo seja tão deficitário que, para quem tenha capacidade técnica de o fazer, colocar a bola em determinado local seja mais um passe em forma de cruzamento que uma avé-maria para salvação das almas.

Posto isto, talvez se explique a fixação das massas pelo engodo do cruzamento. Lembremos essa frase tantas vezes repetida, perante um, mais um, cruzamento inócuo: «O cruzamento foi bom, só que alguém tem de aparecer». O que os aficionados desejam é, acima de tudo, ver disputas de bola. Não querem ver inteligência, não querem ver uma equipa a construir e criar de tal modo que cada golo pareça mais um passe para as redes que um verdadeiro esforço sobre-humano; não querem ver uma equipa a desafiar, a iludir, a manipular o adversário, querem, isso sim, que ela vença uma outra guerra, decidida ainda antes do apito inicial, contra as probabilidades.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Louvor e simplificação de Artur Semedo, com figurinhas e tudo...

De entre todas as realizações que a mente humana possa engendrar, decerto as que mais causarão esse tipo de reacções bipolares de que falámos serão os raciocínios pejados de polissílabos e quaisquer formulações gráficas que possam fazer lembrar, mesmo que remotamente, esse conjunto aterrorizante de saberes, a matemática. Isto, acreditamos, dever-se-á a que ambas se encontram fundeadas na lógica, com a qual muito poucos querem conversa. Visto que não queremos que falte nada a quem não nos lê, e como das primeiras já temos vindo a disponibilizar exemplos a rodos, temos que:

fig. 1

Parece-nos óbvio que isto dispense demais explicações. Porém, e só pelo prazer da verborreia, deixaremos algumas pinceladas analíticas ao proposto.
Imaginemos, pois, que num jogo de futebol concorrem duas equipas, X e Y, a que aqui, e por conveniência, chamaremos X e Y. Visto que, mesmo ao mais baixo nível competitivo, se verá sempre pelo menos uma centelha de organização, um lampejo de uma ideia de como jogar, consideremos que, quando duas equipas jogam, o seu caminho se encontra já cruzado algures para lá do ponto zero. Antes ainda de perceber como joga cada uma das equipas, analisemos a qualidade individual ao dispor do treinador, isto é, saibamos, em média, quais os atributos físicos, técnicos, intelectuais, psicológicos dos jogadores: são rápidos, lentos, resistentes, ágeis, toscos, anomalias da motricidade humana?; são capazes de executar em conformidade os movimentos fundamentais com bola (recepção, passe, remate, condução…), e até que grau de oposição adversária conseguem manter essa qualidade?; são capazes de entender o que o jogo exige deles, decidir em conformidade, criar soluções novas, e com que velocidade de pensamento-acção?; são capazes de se manterem calmos sob pressão, inclusivamente advinda de factores exógenos ao jogo?... e por aí fora, adiante. A esse valor médio dos que constituem o plantel, chamaremos de i, de indivíduo, e atribuiremos a imagética de uma camisola, só porque sim. Como está bom de ver, Xi e Yi correspondem à qualidade individual média da equipa X e Y, respectivamente. Do mesmo modo, Xc e Yc correspondem à qualidade colectiva, ou c, do jogo de cada equipa. No seguimento do que já afirmamos, essa qualidade é tão maior quanto mais organizado, complexo e completo for o seu jogo em todos os momentos do jogo. Quer isto dizer que uma equipa que ataque sempre em transições ofensivas, forçando-as mesmo quando não deve, está num patamar inferior ao de uma outra que o faz quando tem de ser, e, no restante, promove um futebol de ataque em organização, com posse de bola, inteligência e critério; ou ainda que uma equipa que defende homem a homem é inferior a uma equipa capaz de dominar a defesa zonal com rigor. Porquê? Porque os primeiros exemplos demonstram menos capacidade de entender o jogo e, por conseguinte, controlá-lo.

Da relevância das omeletes
Seguindo o senso comum, o índice de i deveria ser, no fundo, o equivalente ao mínimo esperado do desempenho colectivo, ou seja, se as competências médias dos jogadores atingem determinado valor, presume-se que um treinador minimamente competente consiga levar a equipa a explanar um futebol consoante com a qualidade dos recursos disponíveis. Nem sempre é assim, no entanto. O valor efectivo do c nem sempre está acima ou, pelo menos, ao mesmo nível que o do i.
fig. 2
No caso de Xc <=> Xi, o resultado verificado é Xc > Xi. Em sentido contrário, Yc < Yi. Da amplitude de variação entre os dois parâmetros, conjugada com as posições relativas que os mesmos ocupam no eixo da equipa respectiva, podemos inferir das hipotéticas razões que justifiquem essa relação. Vejamos, primeiro, Xc > Xi: uma tal largueza poder-se-á dever meramente a um miraculoso acaso ou a uma falácia estatística (em que, na verdade, se se considerar apenas os jogadores habitualmente utilizados o valor de i será muito superior ao valor obtido para todo o plantel, casos a que se soeu chamar de plantel desequilibrado)? Ou não será mais provável que o treinador tenha conseguido incutir nos seus jogadores uma forma de jogar que exponencie as qualidades e mascare os defeitos de cada um deles, fazendo com que, no geral, o resultado se revele muito superior ao que seria esperado, analisando-se os particulares? Aliás, é sequer expectável que, com um plantel que denote uma qualidade individual média como esta, haja lugar para desequilíbrios assim tão gritantes dentro do mesmo? Já em Yc < Yi, a diferença aparece-nos muito mais esbatida, deixando-nos adivinhar que o maior problema talvez resida na incapacidade de operacionalizar, por parte do treinador, as suas ideias de jogo, ou que estas, não sendo tão más quanto se possa pensar, não sejam as mais adequadas aos recursos de que dispõe, os quais, se observarmos, não relevam de grande categoria.
Daqui induziremos ditatorialmente que, regra geral, quanto mais além o valor de c estiver em relação ao de i, mais provável será que essa distanciação se deva de facto ao trabalho do treinador e à qualidade do seu modelo de jogo, e menos a detalhes, aleatórios ou estatísticos; no sentido inverso, quanto mais aquém estiver c de i, menos capaz o treinador há-de ser. Existem decerto limites ao que o treinador possa acrescentar a uma equipa. A partir de certo nível de qualidade individual ao seu dispor, apenas um treinador de génio conseguirá oferecer ainda mais que aquilo que os seus recursos prometem à partida (fig. 2). Do mesmo modo, quando a qualidade individual é de facto medíocre, torna-se impossível aplicar um modelo de jogo tão complexo que exija dos jogadores capacidades que eles não possuem. Quer isto dizer que nem sempre o valor colectivo observável de uma equipa reproduz fielmente a idealização do seu treinador – resta, a este, continuar a insistir no trabalho diário para tentar aproximar a realidade do projectado por si. No sentido oposto, são bem menores os limites à destruição que um conjunto de más ideias e más práticas podem produzir numa panóplia de abundantes soluções.
Resumindo este segmento ao prosaico desenvolvimento de uma consumada máxima: não se consegue fazer omeletes sem ovos, mas nem sempre precisas dos melhores ovos para que ela fique saborosa, e, outrossim, não basta ter de facto os melhores ovos para que o resultado seja delicioso. O segredo está nos ingredientes extras e no bem mexer…

Da mirífica diagonal do sucesso
fig. 3
Usemos, agora, esta construção teórica para inferir das possibilidades de cada equipa, à partida, no que à vitória diz respeito. Visto que o fundamental do futebol é o processo colectivo, analisemos o quadrilátero definido pelos pontos [0,Xc,c,Yc]: um rectângulo em que uma das dimensões (neste caso, a largura: 0,Xc) se apresenta claramente inflacionada em relação à outra. Quão mais desproporcional for esta relação, seja em que sentido, maior vantagem retirará dela a equipa que se encontre mais além no seu próprio eixo. Pelo contrário, se o resultado for ou se assemelhar a um quadrado (fig. 3), podemos esperar um jogo colectivamente equilibrado. Não necessariamente de qualidade, mas a isso voltaremos. Quanto à individualidade, o rectângulo formado por [0,Xi,i,Yi] acaba por ser menos distendido no sentido da largura que o anterior, fruto, já da menor importância do individual em X, já das capacidades individuais médias estarem acima do modelo de jogo, em Y. Fosse o futebol um jogo em que predominasse o factor individual, e as probabilidades de vitória da equipa X diminuiriam na mesma razão em que aumentariam as de Y. Porém, o que realmente se verifica é que mesmo a menor das grandezas de X (Xi) se consegue sobrepor à maior das valias adversárias (Yc). Arriscaríamos até a dizer que bastariam essas individualidades de X, mesmo que sem se exibirem ao seu melhor nível colectivo, para se sobreporem ao colectivo de Y.
Surge-nos ligado a essa crença o ponto m, que resulta do cruzamento dos atributos menores de cada equipa. Este pode ser um ponto diferente quer de i quer de c, sendo então, Xc > Xi e Yc < Yi (como é o caso) ou Xc < Xi e Yc > Yi; ou ser equivalente a um deles, sendo então Xc > Xi e Yc > Yi  (fig. 3) ou Xc < Xi e Yc < Yi; ou, ainda que muito pouco provável, equivalente a ambos, caso em que, necessariamente, Xc = Xi e Yc = Yi. De entre todas estas possibilidades, surge-nos como altamente verosímil que, se m resultar diferente quer de i quer de c, a equipa em que c>i parte com vantagem, à partida, para o jogo, e, outrossim, que essa vantagem será tanto maior quanta a diferença entre Xc e Yc. Já a equipa que estiver na situação inversa verá as suas possibilidades serem absorbidas por aquilo a que chamamos de P, de pormenor puro. Ou seja, a equipa cujo individual se sobrepõe ao colectivo e que, sobretudo neste factor, está muito aquém do adversário, fica mais refém daquilo que os seus jogadores, por si só, sejam capazes de trazer ao jogo. Isto não quer dizer que o pormenor não exista sempre, diluído nas áreas acima descritas. Simplesmente, neste caso, ele assumir-se-á como que sendo uma substância autónoma, e, igualmente, imprevisível.
Resumindo, a nossa visão do que é a probabilidade de uma equipa sair vencedora de uma partida de futebol baseia-se em três alicerces fundamentais: o seu colectivo ser superior ao seu individual; o seu colectivo ser o mais evoluído possível dentro das limitações impostas pelo seu individual; o seu colectivo ser superior ao colectivo do adversário. Tudo isto releva do mesmo: o jogo colectivo é que prepondera, a longo prazo, nos resultados (fig. 4).
fig. 4

Parêntesis: da importância do segundo pilar.
(O seu colectivo ser o mais evoluído possível… que tem isso de fundamental? Tem a negação do ?, sinal que, por esta altura, esperamos nós, estaria já a fazer certa confusão na cabeça de quem não nos lê. Que representa este ? no grande plano da criação? Obviamente, o aleatório. ? é a soma de tudo o que, podendo acontecer num jogo, não depende nem dos valores de c nem de i. Tentar negar o ? é tentar negar o caos, é tentar controlar o jogo, é aplicar um modelo complexo e inteligente, é saber que se vai falhar algures, mas que no dia seguinte se irá tentar de novo, falhar novamente, falhar melhor.)

Da contribuição de cada um para melhorar o mundo
Partindo dessa abstracção mondriânica, passámos pela análise dos valores intestinos de cada equipa e, daí, avançámos para as relações de força entre os valores de ambas e consequências ao nível das probabilidades de vitória a curto e longo prazo. Juntemos agora as mãos e percebamos como a qualidade de uma partida resulta do somatório do que cada equipa lhe é capaz de oferecer, e não propriamente de tudo o que sucede durante os noventa minutos mais os extras. Quer-se com isto afirmar que tudo o que dependa de ?, que tudo o que não seja provocado com intuito, se não colectivamente, pelo menos individualmente, é não-qualidade, é um sub-produto inferior de circunstâncias específicas e irrepetíveis.
Temos, assim, aquilo a que podemos chamar a qualidade mínima esperada de um jogo, Qmin. Visto que esta se representa pelo quadrilátero definido pelos pontos 0, m, e pelos resultados das equações Xc <=> Xi e Yc <=> Yi, ela é tão maior quanto mais elevado for o valor destes últimos. Dito de outra forma, na fig. 1 o valor de Qmin é menor que o valor de Qmin na fig. 5 simplesmente porque neste segundo caso o quadrilátero [0,Xi,m=i,Yi] possui uma área maior que o quadrilátero [0,Xi,m,Yc] do primeiro. Será esta conclusão arbitrária? Não achamos. E não o achamos porque quanto mais uma equipa der ao jogo, mais a outra terá de responder na mesma moeda. Um desequilíbrio gritante de qualidade entre duas equipas tenderá a levar a mais forte a relaxar, a não aplicar em campo todo o seu potencial, pois tal não se verifica necessário para cumprir o desiderato vitorioso.
fig. 5
Além disso, e como se soeu dizer, ninguém gosta de ver bater em mortos, e se uma equipa não se encontra capaz de se opor à outra é simplesmente isso que sucede em campo.
Existem, depois, outros acrescentos possíveis à qualidade de um jogo, aqui assinalados como Q+. Estamos a falar, como se verifica facilmente, daquilo que é a diferença entre os valores de c e i em cada equipa, ou seja, se a equipa X do nosso caso primordial dará, à partida, e no mínimo, o seu valor de i ao jogo, pode ainda oferecer-lhe o que vai acima, até atingir a valia do c. Mais uma vez repetimos: entrará na equação o que se considera Q+ quanto maior a oposição que cada equipa oferecer à outra. Somando, assim, Qmin com os valores de Q+, o que nos surge não será, necessariamente, o valor da Q total ou Qmax. Dependerá da existência autónoma, como descrita acima, de um valor de P. No fundo, P equivale, no que à análise da qualidade geral de uma partida diz respeito, a mais um Q+. Simplesmente, torna-se menos previsível que tenha importância, é como que um elemento volátil, que tanto pode aparecer quanto desaparecer sem aviso.
Concluindo, o futebol, enquanto espectáculo, só tem a ganhar com a melhoria dos modelos de jogo em todas as equipas, o que nos leva a uma reflexão final…

Das aspirações meta-estéticas de um solitário
Dificilmente o desporto mais amado no mundo terá alcançado tais píncaros como os que foram atingidos pela equipa de Barcelona aos comandos de Guardiola. Não se tratava somente de uma equipa com uma filosofia de jogo superior; tratava-se de uma equipa que aplicou essa filosofia numa época em que o desporto se encontra em patamares elevadíssimos de velocidade; numa época em que não há tempo para se jogar bonito, a equipa jogou lindíssimo e mostrou, assim, o caminho. E, no entanto, tão poucos o compreenderam, tantos o vilipendiaram.
Muitas foram as críticas tecidas ao jogo culé, mas apenas vamos reflectir sobre uma: a de que os jogos em que jogava o Barcelona eram aborrecidos. E porque eram aborrecidos? Porque 80% do tempo era passado com os blaugrana a trocar a bola, sem objectividade… o que é, já, uma outra crítica derivada da primeira. Não vamos entrar por aí, vamos antes entrar num mundo de fábula…
barça vs. barça
Nesse mundo, as pessoas perceberiam que o que tornava os jogos desequilibrados, aparentemente repetitivos e monocórdicos, não era a filosofia barcelonesa, mas muito mais a(s) dos seus adversários! Perceberiam o que fazia o Barcelona, como controlava o jogo, manietava o adversário, construía condições para ter sucesso. E perceberiam o que faziam os adversários: esperavam por um momento qualquer, um pormenor, um acaso, sacrificavam-se no altar do aleatório.
Nesse mundo, as pessoas não imaginariam um jogo Barcelona vs. Barcelona como uma sequência bocejante de trocas de bola aparentemente sem intenção. Nesse mundo, as pessoas perceberiam que o Barcelona nunca deixaria que o Barcelona fizesse o que queria, o Barcelona lutaria com as mesmas armas e, por conseguinte, o jogo tornar-se-ia algo muito diferente do que alguma vez foi visto até agora. Pela oposição do Barcelona ao Barcelona, ambos os Barcelonas se tornariam, necessariamente, melhores equipas ainda!
Nesse mundo, o paradigma do bom futebol evoluiria, e o jogo tornar-se-ia ainda mais complexo, a um nível que não podemos verdadeiramente adivinhar. Nesse mundo, este gigantesco quadrado de Qmin seria a norma, e não a excepção.

Por ora, e enquanto se negar isto, continuaremos a sonhar, solitários.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

No princípio era o caos

Como é da praxe neste país, vamos facilitar de algum modo os cálculos, para que nos fiquem de feição, e digamos que todos os campos de futebol se dispõem rectangularmente em 105 metros de comprimento por 68 metros de largura, para um total de 7140 metros quadrados de área. Suponhamos, igualmente, que cada um dos 22 jogadores que começam e acabam uma partida sem expulsões ocupa um metro quadrado dessa área total. Posto isto, e considerando que até as folhas de cálculo chegam a um ponto em que decidem mandar-nos bardamerda e deixam de efectuar uma operação mais que seja, as combinações possíveis para a disposição desses jogadores num campo de futebol são, mais milhão, menos milhão: 
5.206.300.584.388.910.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000

De acordo com algumas teorias, num lançamento de moeda ao ar, seria possível indicar, com exactidão, qual o resultado, se se soubessem todas as condições em que esse lançamento fosse realizado: a massa total da moeda, a sua constituição química, a sua densidade, as irregularidades das superfícies, mas também a força aplicada pelo lançador, a pressão atmosférica no local onde é efectuado o lançamento, e por aí fora... estamos a falar de um mero lançamento de moeda ao ar, com cinquenta por cento de hipóteses para cara e outro tanto para coroa, e que vale por si só, isto é, começa e acaba em si mesmo – a cada novo lançamento, nova bateria de cálculos altamente complexos teria lugar.
Embora não de forma linear e cientificamente explicável, há alguns factores que influem na disposição dos jogadores em campo, dos quais destacaria: i) a particularidade de os guarda-redes poderem utilizar as mãos dentro da sua grande área, ainda que esse uso esteja condicionado, o que faz com que, tendencialmente, eles permaneçam a maior parte do dentro dos cerca de 666 metros quadrados (curioso número) que constituem essa marcação; ii) a lei do fora-de-jogo, a qual, dentro da sua complexidade actual, mal-amada por alguns, e incompreendida por imensos, é, ainda assim, o garante de que o jogo não se resume à disputa física e atabalhoada entre aglomerados de jogadores ou, no outro extremo, a uma dispersão aparelhada de elementos em campo - caso não existisse fora-de-jogo, as opções de jogo variariam, com certeza, entre lançar a bola para as grandes áreas e esperar que, entre a confusão, alguém marcasse golo; ou uma sequência inconsequente de duelos individuais sucessivos a todo o comprimento e largura do terreno; iii) aquele que é, como não poderia deixar de ser, o mais importante dos factores: onde está a bola.
Os pontos i) e ii) contribuem, de algum modo, para diminuir as combinações racionais acima enumeradas, o que não é o mesmo que as diminuir matematicamente - segundo as leis das probabilidades, o número apresentado, e salva a preguiça da folha de cálculo, é invariável enquanto houver 22 jogadores em campo (o árbitro não conta para estas coisas, pois é, como se diz, parte do terreno de jogo). Simplesmente, numa perspectiva racional, ou seja, enquadrando as probabilidades dentro dos limites ditados pelas regras do jogo, há combinações que não fazem sentido, como seja, por exemplo, estarem os 11 jogadores de cada equipa dentro do meio-campo adversário. Voltemos a assumir o nosso poder discricionário e consideremos que apenas metade delas farão algum sentido a um qualquer momento de uma partida:
2.603.150.292.194.460.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000

Para gáudio dos artistas e cidadãos do mundo, entra agora o ponto iii) em cena, a bola. A bola vem, segmento esférico ante segmento esférico, e, por um instante, tudo pára. Ela olha para aqueles 22 pares de olhos que a miram e reflecte, sucinta: eu não sou uma moeda. E nós, que a vemos daqui, das arquibancadas do pensamento, concordamos: não és, de facto. A bola não pára e volta ao ponto de partida como se nada tivesse acontecido e tudo tivesse de ser recalculado. A bola, no seu movimento prolixo, é a razão pela qual as combinações posicionais acima descritas se permutam continuamente durante 45+45 minutos. Imaginemos que uma vez a cada segundo (e bem sabemos que tudo se passa muito mais rápido que isso) a bola muda de metro quadrado, e temos a causa para que todos os jogadores se movam igualmente, exponenciando assim a complexidade de um jogo que, à maioria das pessoas, aparenta ser simples. Não é possível resumir o futebol a números, pois a bola não aparece onde aparece porque sim, mas por hoje vamos abreviar argumentos. Por ora, só queremos apresentar os zeros necessários para provar que, nos 5.400 segundos regulamentares de um jogo podem suceder demasiadas coisas para que possamos controlá-las na íntegra, e que, no fim das contas, o caos continuará a fazer sentir o seu peso primordial. Só para três segundos, e visto que finalmente a folha de cálculo estourou de vez:
176.399.653.668.273*10176. sim, são 176 zeros.

A probabilidade de acertar na chave do primeiro prémio no euromilhões é de 1 em 116.531.800.